terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Variância

E se por ventura o dia eu cantasse,
Tão lindo era o dia,
Que o cantar dos meus versos seria
Como se eu o amasse?
Mas amar, o que é amar?
Como posso eu, assim,
Tão facilmente acreditar
Que o dia seja para mim
(E somente para mim seja o dia),
Mais que tudo no mundo,
Toda a causa da minha alegria?

Oh! dia, antes que a noite caia
Quero que saiba...
Não, melhor que não saiba!
Saber-te das coisas te faz menos dia.
Brilhe somente, que a noite já vem
E antes que renasça,
Terei a amado também!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Anexos do tédio

Nada como um dia após o outro... Nada, como um dia após o outro.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ser

Engoliu-me; sugou descontroladamente
tudo quanto pode e das minhas sobras livrou-se;
excretou-as num vaso de louça
e desceu-as por entre canos escuros.
No fim não era nada além de minúsculos pedaços
de mim que ainda ofereciam e eram vida.
E ela era o que mesmo?

Juras inseguras



As palavras que me diz são as mesmas que dizia
a outras pessoas, sem nenhuma diferença;
o tempo é outro, eu sei, mas
amanha também será;
por mais que eu
saiba o que,
não sei a
quem
você
dirá.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Inflação

Se houvesse o câmbio dos verbos,
Quanto valeria o amor que dizes ter por mim?

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Somente tantas

Funda a mente
E ao fundo outro fundo,
Espelhos frente a frente
De costas pro mundo.

Pensa que pensa
E de tanto pensar
Da pequena faz imensa,
Faz ouvir o calar.

Sabe que gira,
Sabe de nada.
Qualquer coisa mira,

Gosta da estrada
Em reta que vira.
Sabe deus pra onde irá.

Enfim

Nascer ignorante sem se saber como tal.
Crescer ignorante, ficando esperta.
Envelhecer ignorante, convicta afinal.
Morrer sabiamente, todo mundo acerta.

Vivendo triste para o breve

Num mundo que por si só é um barulhento papel em branco, cismei em querer ser pintor, poeta...
De pequeno já pessimista inconsciente, desenhava uma estrada de difícil acesso, toda cheia de curvas, que dava numa casa minúscula com chaminé.
Não havia chegado energia ainda, talvez nunca chegasse, não havia coordenadas que localizassem aquele lugar no planeta, não havia telefone, nem vizinhos, plantações, saneamento, fonte de água...
No chão eu, magro, muito magro (também pudera). Nada em mente, nada em mim, verticalmente breve.
No céu o sol que ria despreocupado; urubus voavam, eram os únicos sábios ali.

Musical em um só ato

De velha e entediada da vida, assobiava por entre solavancos a carriola carregada de sentimentos que no vai e vem do trajeto ainda não tinham se perdido.

Portas antigas, cansadas do seu abrir e fechar, cantando em forma de ranger a horripilante realidade que grita: tudo passa, menos a porta que fica e é passada, e é passado.

Passei por todas elas carregando o que havia; e mesmo de longe se ouvia o meu sapatear, pra lá, pra cá.

Assim seguia toda essa sinfonia, até que um dia, os sentimentos se perderam até o fim e acabaram, tudo calou-se, fecharam-se as portas, encostei a carriola e me deitei pra nunca mais.