domingo, 28 de junho de 2009

Coma

A vida não quer-me
E tampouco me quer a morte;
Me impele aquela à esta,
Que me repele;
E eu aqui a ama-las.
Uma carrega a esperança esgotada
E a outra a desconhecida;
Uma cansa de tantas voltas que dá...
Da outra volta não há.
Por que nenhuma sobressai-se?
Se morresse a vida
Restaria-me a morte para amar -
Mas continuaria meu amor o mesmo
Diante da mudança?
Se vivesse a morte...
Morreria o sentido das coisas.
E eu aqui...

Besta poliedro

Não era da espécie das bestas quadradas, era um poliedro
E cada face sua era tão ignorante quanto a outra.

sábado, 27 de junho de 2009

...

É terno aquilo que vestem os mortos?

Desordem

Acordei.
Caminhei movimentando o ar pelo caminho.
Abri o armário do banheiro, peguei escova e pasta
e desfiz-me do hálito natural.
Fui a cozinha, tirei o pote de café do seu devido lugar, abri-o
e com a colher retirei quanto me era necessário.
Esquentei a água - por deus, quanta desordem eu já causava
ao início do meu dia.
No fim das contas era o café devidamente pronto
e as coisas postas novamente em seus lugares -
mas nada mais como era antes.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Em branco

Olha...
esquece, que nada compensa ser dito
pois passa e depois
vira um espaço vazio a mais.
Tudo que é feito,
tudo quanto é pessoa, tudo que cria raízes,
nada é real e passa, sempre passa
e aumenta o deserto que fica, sempre fica.

Não, não me diga nada também,
não quero ser parte do seu auditório
ouvindo suas músicas e vendo a performance -
você canta e dança de uma forma exclusivamente sua;
porque diabos enganaria-se crendo que eu concordo
ou eu enganaria-me crendo que entendo?
Olha que tudo isso só aumenta o deserto - que é fato.

domingo, 21 de junho de 2009

Solidão

Sozinho, o dia todo,
Sem outra pessoa que não eu
E sem outra voz que não fosse a consciência
Que logo pela manha me despertou
Gritando a solidão evidente;
E ecoou o dia todo...
E seguiu infinito adentro
Me deixando também.

domingo, 14 de junho de 2009

A toa

Quantos decibéis foram necessários para outorgar
evidência a noite de festa que se passou?
Quantos olhos alheios promoveram a claridade
e a força motriz de todos os seus atos?
Quanta propaganda de si você fez
mesmo sem ter se dado conta?
Quanta conta! Quanto foi a conta?
Mas foi boa, certamente a noite foi... foi!
E agora?
O silêncio te perturba e grita por dentro;
Só você ouve-o, ou não ouve.
Não sabe estar só, heim?!
Só ninguém atua, não?
No máximo um ensaio... mas o que é um ensaio
Para quem se acha uma estrela magnifica?
O que é ser estrela em um quarto, só, numa noite de domingo?
Para que serve?
Para nada.

domingo, 7 de junho de 2009

Natural

-Sinta a mente.

-Heim?

-Minta a mente!

-Ah!

Quando morreu um homem mau

Morreu coitado, era tão bom.

E ao afirmar isso, abriram-se as portas do céu ao que vivia,
e ao que jazia fecharam-se as portas
do único passado que ele teve de fato.
Agora estava completa a deterioração de toda sua existência.