segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Maria Ignês

As janelas abertas, de fora para dentro, 
pintavam-na com o sorriso aberto ao me ver -
um sol brilhante frágil em seu rosto de fim de tarde, pintado, marrom e branco.

Ah! aquela alegria em me ver, tão rígida, antiga e presente!

De dentro para fora pintavam-me
com seus olhos de 81 anos, ou toneladas.

A idade pesa,
O coração enfraquece. 

A idade pesa no coração enfraquecido.

Pressente. 
Um relógio que para. 
Confuso horário. 
Um sopro e apaga.

Besteira Posterior

Tudo bem que chorei ao nascer,
Mas qualquer besteira posterior me fez rir.
Qualquer besteira posterior me fez.
Uma cabeça que saia por de trás das próprias mãos,
Um jogar-me para o ar e resgatar-me ileso
Ou um assopro no umbigo.

Tudo bem que cresci e chorei outra vez,
Mas qualquer besteira posterior continuou me fazendo rir.
Qualquer besteira posterior continuou me fazendo.
Uma cabeça que saia por de trás das próprias mãos,
Um jogar-me para o ar e resgatar-me ileso
Ou um assopro no umbigo.

Tudo bem que fiquei velho e ri,
Era enfim a besteira posterior propriamente dita
Sei lá quantas vezes eu cresci, chorei
E acabei rindo de qualquer besteira posterior
Que também me fazia.
Eu não parei para contar.
Eu não parei.

Enfim feito, envelheci e ri do que eu era.
Ri até que parei.
Eu parei!
Eu!
A besteira seguiu, posterior, e foi por ela que choraram.

Fotografia

mudo de foto, de fato -
pois que mudam os fatos com as fotos;
como quem possui o controle remoto
e muda de longe o canal que é chato!

Que não eram as flores que usavam
os espinhos para protegerem-se,
mas sim estes que usavam-nas para atacar,
descobriu tarde.
No dedo furado uma gota vermelha
dava as caras, mensageira do coração
que viera observar o que se passava - mais um engano.

sábado, 12 de janeiro de 2013

a felicidade alheia


a felicidade alheia
é o fogo
de um cigarro apagado
por acender.

ateia,
eu rogo
por este agrado
que me fará morrer.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Pescando burros n'agua


O duro de Nova Europa
É que se o tempo imita a cidade
E fica feio de igual pra igual,
Cai a internet, acaba a eletricidade
E fode o meu "social".

(Uma idéia passou na enxurrada)
Não vejo outra solução:
Vou mandar uma garrafa,
Embaixo contendo alfafa
E em cima reclamação.

Deve ser essa
A única maneira
De se pescar um burro n'agua
De forma certeira.

Quem sabe não sane, o senhoril,
Desta forma, e de pança cheia,
Seu ilustríssimo dever varonil:
Civilizar essa aldeia!