terça-feira, 17 de novembro de 2009

Maria Ignês, Minha Avó

minha avó estava morta e os semáforos estavam indiferentes.
corríamos, porque é isso que quem é vivo faz:
corre atrás de coisas e papéis.
porque é preciso registrar-se quando se nasce,
se não, não se nasceu.
e é preciso certidão de óbito quando se morre,
se não... bem, minha avó estava morta -
e os semáforos estavam indiferentes.

entre vermelhos e verdes que os carros respeitavam,
seguiam pensamentos infratores, irresponsáveis, embriagados.
"verde! ela nasceu...
amarelo! envelheceu...
vermelho! ela... ela seguiu, e nós ficamos."

ficamos e a perdemos de vista.
continuaremos a ficar e seguir conforme manda a ordem do mundo vivo.
mas minha avó está agora morta e indiferente aos semáforos.
infratora! irresponsável! embriagada!

Um comentário:

Márcio Bortoloti disse...

vão-se os corpos ficam os papéis!